Vai para três anos que voltei ao Norte familiar. Os “primos do Norte” ali tiram férias, trabalham e, um deles – curiosamente o mais novo embora ele diga o contrário, até trabalha na distribuição. Tempo para um vinho há sempre, o ano passado até para muitos mais, mas este ano calhou termos a mesa. E, até, num acidente dos que trazem sorte, se derramou um pouco na garrafa mais inclinada. Ora meu Primo trouxe-nos um Encruzado, é paixão de família.

E o Quinta do Perdigão Encruzado 2024 está de estalo. Cor amarelo-dourado com reflexos de limão, muito aromático, com notas de fruta branca. Vivo, alegre, fresco, vibrante, estruturado. Mineral e frutado, transparente e luminoso.
Meu Primo, assomado o Encruzado ao nariz, exclama, “para mim está melhor que o de 2023”. Ora o Encruzado 2023, por exemplo, foi elogiado pela pureza de fruta, notas cítricas e de fruta branca, com boa untuosa e acidez viva. Sei-o, de o ouvir e o de beber. Porém, sou tentado a concordar, o 2024 segue essa linha, melhorado, um branco elegante, fresco, bem estruturado, com mineralidade e profundidade.


Um alimentador de conversas, que minha Prima arrematou com uma salada russa, filetes de polvo e, quem muito bebe muito come, umas excelentes tripas. A botelha está a 15,20 euros e faz sentido tomá-lo como melhor, quase custa a acreditar nesta possibilidade, que o de 2023. Porém a vindima de 2024 foi das antigas, depois de anos desafiantes, ora chuva, ora ondas de valor, tivemos uma excelente colheita e vinhos excecionais. A meteorologia ajudou a produzir alguns vinhos fabulosos, níveis de precipitação próximos da média, temperaturas alinhadas com a época, floração e pintor mais próximos do normal. Maturações graduais com bom equilíbrio entre açúcares e acidez. Vinhas em excelente estado, boas reservas de água nos solos que resultaram da precipitação generosa. Um ano excecional e estamos agora a comprovar.
Volto à mesa, oito comedores, vinho de alta qualidade, com um foco particular em práticas de agricultura biológica certificada. O Encruzado da Quinta do Perdigão é um dos vinhos mais emblemáticos da casa e, geralmente, um dos mais apreciados pelos críticos.
O Encruzado é uma casta branca de excelência da região do Dão, que se destaca pela sua capacidade de produzir vinhos com uma excelente acidez, estrutura e um potencial de envelhecimento notável. Ora meu outro Primo, já da segunda geração e sensato, fez-me ver a questão dos rótulos. O produtor opta por designs diferentes a cada ano, o que é um fator de diferenciação, mas que, como referiu me Primo, “pode gerar alguma confusão no consumidor”. Eu, que ainda pensei pouco no assunto, embora lhe dê razão no essencial, julgo que a estratégia visa tornar cada colheita única, refletindo a individualidade de cada ano, mas para quem procura a consistência visual, pode ser um desafio. Mas, claro, leituras há muitas e eu, pelo gosto na arte e pela amizade da Vanessa Chrystie, gosto das mudanças. E, contraditório como sou, concordo com os dois, pese embora meu Primo ter razão se o virmos pela necessidade de educar os clientes mais jovens. Mas a Arte, Bertinho, essa vejo-a como rasgo.

De consenso, além de copioso jantar e dos cigarros fumados com a brisa do Atlântico nas fuças, o perfil bem aromático, fresco, complexo e cheio. Estrutura, com um aroma sofisticado, paladar intenso e sonoro, calibrado e uma textura envolvente e de boa mineralidade que lhe confere transparência e luminosidade. E brilhou, na mesa, embora depois tenha fugido um pouco para um tinto, pela versatilidade gastronómica. Além de meus primos, foi um ótimo companheiro, e amigo da mesa.
Sim, ainda jovem, com muito para evoluir, mas que não deixa já de dizer ao que vem.
O Quinta do Perdigão Encruzado 2024 é um branco elegante e entusiasmante, de aroma rico e paladar equilibrado e refrescante. Muito eloquente a expressividade da casta Encruzado, com uma clara identidade do Dão e da Quinta do Perdigão.
Um vinho sofisticado, para almas que pensam, e mastigam, que conversam e que se reencontram. Um Encruzado pleno de autenticidade.






