Vinhas urbanas, a filosofia da terra na Pousada de Viseu


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Vinhas urbanas, a filosofia da terra na Pousada de Viseu

Conheço uma vinha, quem desce para S. Salvador, mas ainda dentro do perímetro de Viseu. Conta três mil metros quadrados. Há outra, na Avenida António Almeida Henriques, em Ranhados, ao lado da Escola Agrária e separa as duas vias da estrada. E mais uma, na Pousada de Viseu. Uma geografia, do impossível a que a realidade deita veracidade. Vinhas urbanas.

Pousadas estão uma dezena de castas, meio ao branco e outro tanto ao tinto. Na Pousada de Viseu as 80 videiras estão a descansar. Em dezembro, as cepas estão em repouso vegetativo. A dormência, um período de descanso profundo após a vindima, é oportunidade para a poda de Inverno, que, com a Primavera, haverão de chegar choro e abrolhamento.

Andamento, profundidade e riqueza, eis uma narrativa que funde a história arquitetónica com a filosofia da terra. Sob o céu de Viseu, onde o tempo parece ditar um ritmo mais sereno, ergue-se a imponência pétrea do antigo Hospital de São Teotónio. Esta estrutura de 1842, que outrora serviu o corpo, renasceu em 2009 pela mão sábia do arquiteto Gonçalo Byrne, transmutando-se numa Pousada que é, hoje, um marco indelével na paisagem urbana mais tranquila de Portugal. Mas a alma deste lugar não reside apenas na geometria das suas varandas panorâmicas ou na hospitalidade dos seus 84 quartos; ela pulsa, agora, num projeto pioneiro de Vinhas Urbanas. Desde o dealbar de abril de 2019, numa simbiose virtuosa entre a academia e a hotelaria, o jardim e o parque de estacionamento deixaram de ser meros espaços de transição para se tornarem num manifesto vivo da identidade regional. Filosoficamente, estas vinhas representam a reconquista do espaço público pela natureza ancestral, onde videiras de castas exclusivamente portuguesas desafiam betão e pressa da modernidade.

À entrada da Pousada, as castas Cercial, Jaen, Touriga Nacional e Alfrocheiro Preto saúdam o visitante com a promessa de um enoturismo autêntico. No parque de estacionamento, a biodiversidade floresce numa polifonia de brancos e tintos: o Encruzado, o Alvarinho, o Arinto, a Fernão Pires, a Touriga Franca, a Tinta Roriz e a Trincadeira coabitam em perfeita harmonia. Não se trata apenas da lavoura, é antes andamento rítmico que acompanha as estações, culminando na vindima urbana, liturgia que liga o hóspede à terra e a cidade ao seu legado vitivinícola. Ao caminhar por estes corredores, o visitante compreende que está no coração de uma região que não apenas produz vinho, mas que o respira.

Este cenário de reabilitação e respeito pela memória, inclui ainda uma farmácia, sublime ironia, e é lá que está a Amora Brava. A loja, que retoma nome aos vinhos, ocupa com graciosidade o espaço daquela que foi a farmácia do antigo hospital. Onde outrora se aviavam fórmulas para curar o corpo, reside agora um projeto de curadoria da terra, focado na excelência dos produtos endógenos e na preservação da biodiversidade da Beira. Integrada de forma orgânica na Pousada de Viseu, esta loja não é apenas ponto de venda, mas um santuário de autenticidade que complementa a filosofia das vinhas urbanas. A Amora Brava resgata o saber-fazer ancestral, oferece vinhos de castas portuguesas, que ali mesmo, a poucos metros, crescem no jardim e no parque, acrescenta azeites, acepipes e iguarias que são verdadeiros elixires do território. E arte, para regalo da vista e bem da alma.

Filosoficamente, a presença da Amora Brava na antiga farmácia é um ciclo que se fecha, se o Hospital de São Teotónio cuidava da saúde, este novo espaço cuida da alma e da identidade, mantém vivo o andamento de uma cidade que sabe honrar o seu passado enquanto planta futuro. É a prova de que a pedra antiga e o design contemporâneo de Gonçalo Byrne podem, de facto, abrigar projetos que celebram a vida no que ela tem de mais genuíno.

Onde outrora se guardavam os remédios para os males do corpo, instalou-se a Amora Brava, uma loja que funciona como um novo boticário da terra e da cultura. Esta transição não é apenas arquitetónica, mas profundamente filosófica e sensorial. Se em 1842 o hospital era o centro da saúde regional, a ocupação da farmácia pela Amora Brava marca um regresso à essência. Hoje, o remédio oferecido é a preservação da identidade, através de produtos que celebram o território.

A loja atua como a face visível do projeto das Vinhas Urbanas iniciado em 2019. Enquanto as 80 videiras de castas exclusivamente portuguesas crescem no exterior, desafiando o contexto urbano, é no interior da antiga farmácia que essa cultura se materializa para o visitante. A dialética das castas, das videiras de Cercial e Jaen que guardam a entrada da Pousada até à loja, o ciclo do vinho e dos produtos endógenos completa-se.

A Amora Brava representa a continuidade da vida do edifício, uma cura que agora se faz pelo paladar, pelo aroma e pelo reconhecimento de que a verdadeira saúde de uma cidade reside na vitalidade das suas raízes. É o andamento perfeito entre o rigor histórico de Gonçalo Byrne e a pulsação vibrante do Dão que ali se encontram. Tudo isto me contou a Renata, falem com ela. Tem um organograma com todos os segredos das quintas vinhateiras, destinado ao enoturista. Ao caminhante. E, convenhamos, vindimas urbanas tem esse fascínio, ‘hable con ella’, tal como no filme de Almodóvar, ouvir e responder.

(Esta estória foi-me contada pela Renata Neves, da direção da Pousada de Viseu e a quem agradeço palavras e fotografias. Este Armazém só acrescentou caminho, feito e visto.)

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