Três euros. Um belíssimo final de tarde por uma botelha de três euros, comprada numa grande superfície e que acalentou o meu final de tarde, o meu período favorito do dia, quando a família se senta na varanda, por entre fumos e vinhos. E ele há vinhos que entram na sala de casaco comprido e falam baixo, como se tivessem uma quinta de família. E há outros que sabem ao que vêm, sentam-se à mesa, pedem qualquer coisa para comer e começam a conversa.



Este Coleção do Mocho Branco 2025, da Adega Cooperativa de Mangualde, está claramente no segundo grupo. É um branco do Dão de perfil descomplicado, mas não simplista. E isso, num vinho de vocação quotidiana, é uma qualidade.
A Adega Cooperativa de Mangualde, fundada em 1963, trabalha a partir de uvas dos seus associados e está instalada numa das zonas mais interessantes do Dão, marcada pelos solos graníticos, altitude e amplitude térmica.
À vista é de um amarelo muito pálido, quase citrino, limpo e luminoso. Não procura impressionar pela cor, nem precisa. É daqueles vinhos que parecem anunciar desde logo, não estou aqui para envelhecer conversa.
No nariz, diz o rótulo, há aroma intenso e notas cítricas, e a descrição é coerente com aquilo que se espera deste perfil de branco do Dão. Mas eu acrescentaria alguma coisa, há uma sensação de fruta branca fresca, citrinos e uma mineralidade que lhe dá alguma verticalidade.
Não é um nariz exuberante nem tropical. E ainda bem. Não há aquela fruta de catálogo de supermercado, maracujá, manga, ananás, a lista habitual que às vezes parece inventada por um departamento de marketing.
Aqui há contenção. Na boca é onde o vinho ganha interesse. Tem frescura, acidez bem presente e uma mineralidade evidente, sem se tornar agressivo. É leve, mas não aguado. Tem equilíbrio e uma persistência razoável para um vinho desta gama, frescura, mineralidade, leveza e um final relativamente longo. A sensação que fica é a de um vinho feito para ser bebido e não explicado. E isso merece elogio.
Não procura madeira para parecer importante, não procura álcool para parecer musculado, não procura doçura para agradar a toda a gente. Tem acidez, fruta, mineralidade e equilíbrio. O suficiente. É um vinho particularmente feliz, também o vejo muito bem de conversa. E há uma coisa que lhe reconheço: é perigosamente fácil de beber. Aquela garrafa que se abre para acompanhar o fim de tarde e, quando se dá por ela, alguém pergunta: — Ainda há? E já não há.
Não é um vinho para impressionar o enólogo que leva uma caderneta debaixo do braço. É para agradar a quem bebe vinho. Tem a vantagem de mostrar uma característica que considero essencial nos brancos do Dão, frescura sem magreza e mineralidade sem austeridade.



A Adega Cooperativa de Mangualde tem, aliás, vindo a apresentar vinhos de diferentes patamares de ambição, e a sua gama tem recebido distinções recentes, incluindo vários “Vinho Ouro” no Concurso Vinhos do Dão.
Este Coleção do Mocho Branco 2025 não quer ser o vinho de contemplação da noite. Quer ser o vinho que está no frigorífico quando chegam os amigos.
E cumpre muito bem esse papel.






