
½ quartilho
Uma comezaina, não o bacalhau com grão, batata e ovo a nadar em azeite, que me anda a pelar, mas uma carnuça de forno e uma batatas para adornar barriguinha e chegamos ao âmago da prebenda.
Malgas de azeite e vinagre e alho, muito
Os meus Natais tinham o ritual do azeite. Sempre a hora da ceia, sentados, cortávamos alho e preparávamos o prato. Creio que o hábito venha do Norte. Depois chegavam as malgas de azeite. Uma delas com vinagre já misturado, um balsâmico no ouro milenar. Lembrei-me do azeite a propósito das Fidalgas.


Santa Luzia, a Beira toda numa mesa
Chegámos à Beira, sem nunca sair dela, quase à mesma hora que meu Avô Artur pedia a minha Tia Dina para colocar o copo de vinho em banho-maria, religiosos dez minutos antes da meia hora, expressão que meu Pai usava para sinalizar 12 horas corridas ao dia. Assim, famintos e bem amesendados, prescindidos os enchidos entradeiros, chegou presunto de fino corte, gordura que se derrete na boca, suculência e sabor em textura firme e tenra, de bom aroma. Ao lado queijos da terra, sabor intenso e agradável, complexo e persistente, resultado de um longo processo de cura, no que ao velho diz respeito. O amanteigado cumpriu com o compasso e contemplámos a beleza da vida.
Cambalro, entre a mariscada e a francesinha
No coração pulsante de Viseu, com a Quinta Agrária e o Fontelo à ilharga, abale-se pela Estrada da Ramalhosa, procure o bairro de Gumirães e encontrará o Restaurante Cambalro, com diárias, mariscadas e boas francesinhas. Mais do que um mero ponto de paragem, é um santuário gastronómico onde o Norte de Portugal encontra o vasto Atlântico numa harmonia deliciosa e acessível.
Para o comensal que busca a pura essência do oceano, a estrela inegável é a célebre Gamela de Marisco, para dois ou quatro convivas, é um festim de texturas e paladares.


A arte do prego
O Lorde tinha uns pregos famosíssimos, porém o meu favorito era o do Bingo, que chegava à caserna numa pausa da jogatina, engrossado com bom queijo, fiambre, manteiga em pão ligeiramente tostado e avia. Também havia, mas no aviar é que estava o ganho, 300 escudos, 1,5 euros nos dias de hoje sem correção monetária. Isto em Viseu, nos anos 90, por aí assim. Verde Gaio também é poiso merecido, com espaço para fumadores e vinhos para apostadores.
Hoje o prego tem três geografias, Jugueiros, Verde Gaio e o 55, para quem está na cidade. Desvios, só no IC-1, em Grândola, para a gasolineira da BP, ou, cá mais atrás, na Benedita.
Taberna Londrina, Viseu
A Taberna Londrina em Viseu ergue-se como um dos múltiplos portos desta vasta cadeia, uma âncora fincada na histórica Rua Aquilino Ribeiro, sob a sombra da Biblioteca Municipal. A presença na cidade, embora parte de uma identidade corporativa, carrega o peso de uma promessa: oferecer a francesinha, rainha incontestável do menu, numa experiência consistentemente replicada de norte a sul.
O que implica, per si, sóbria reflexão.
Na mesa, o registo da despesa fala por si. A conta ascendeu a um valor notável para três mastigantes, um fardo de sessenta mil réis, na antiga e nostálgica moeda, um preço que pondera o paladar.


Petiscos Silvas
Descia a rua da sede do PCP, onde fui gravar entrevista e o ocaso da noite, já posto, iluminou-se. Petiscos Silva, brilhava a chamada, logo ao fundo da rua, as Escadinhas do Castelo, que terá havido em tempos, por esta tarde, o castelo era o balcão corrido e a sala bem posto e iluminada. Vitrine, vinho do Dão e vamos merendar, que no meu caso era almoçar. Seia tem para oferecer muito e bom, queijo que derrete só de olhar, presunto que faz qualquer dieta repensar a vida e enchidos curados ao frio da montanha.
Taberna Dona Antónia
Minha Prima colocou-me no radar e eu, em duas visitas seguidas, coloquei-o na agenda. Antes de irmos ao provador, o bebedor. Na primeira visita só havia uma garrafa de vinho do Dão, na segunda não havia. E pela primeira vez em dois anos, dei por mim, na cidade de Viseu, capital do Dão, a beber vinho de outras regiões demarcadas. Nada de mal, tão pouco contra, uma carta de vinhos robusta.
Sucede que a Dona Antónia fica na Avenida Beirão do Carmo, nas imediações do Instituto Politécnico de Viseu, que tem um dos melhores cursos de enologia do país e se pensamos apenas nos passantes, e na clientela jovem, haverá outros fregueses que se abalam.


Quinta da Magarenha
Em 34 anos, cresceram as árvores, manteve-se o anel de aldeias à volta, cresceram algumas casas ali perto. A Quinta da Magaranha continua restaurante de casa cheia e comida regional, o adjectivo é elogio. Comer e beber local, é prática que mantenho desde há uma dúzia de anos. Pelo menos. No essencial manteve as vistas. As janelas também. E, na porta dos fundos, expressão que incendeia almas pudicas, um outro salão, com bar e suficientemente reservado para estroinas.
Queijo de Ovelha Curado Tojal Mau
Descobri-o de conversa e de olhos. Depois de provado, e de ter encontrado amigo que ajudou no projeto destes quatro jovens, amigo com currículo vasto na área, levei lá outro agrónomo que fez fineza de me oferecer o curado. Por 7,5 euros, temos que subir estes preços, conheci um queijo singular, jovens que apostam na lavoura e que, creio têm um rebanho de 300 ovelhas.
O meu curado trouxe pungência, o ligeiro picante que tanto me agrada. Aroma e paladar inconfundíveis; suave e requintado.


À sombra da parreira do Risadas
O Manuel Risadas herdou, em Jugueiros, taberna e mercearia em nome próprio que já vinha da família. Pouso antigo e com lastro. Ficam na memória as portadas azuis, a varanda e as parreiras. No dealbar das modernas tabernas, foi transitando de mão e mão, acrescentado de telheiro e assador e hoje acolhe o Vermelho e Verde, que continua o que sempre foi, conversa, petisqueira e boas botelhas.
Vinha do Contador Aguardente Vínica Velha
É uma das, raras, aguardentes vínicas do Dão, produzida a partir das uvas da Vinha do Contador, uma das mais emblemáticas propriedades de Santar e que emprestou nome a esta excelente aguardente vínica, produzida pela Global Wines.
Foram 20 anos a envelhecer em barricas de carvalho que tornam esta aguardente Vinha do Contador para um patamar distinto de uma região forte e que merecia mais destilados deste gabarito.


Regresso à Galeria 22
O almoço trouxe-me as prodigalidades da região, vitela, cabrito e uma carne arouquesa na chapa. E bons brancos. Mesa feliz, esmoer imposto e eis-me a caminho do Centro Histórico de Viseu.
No casco velho, encontrei, já sem piano, porta antiga e franca. Vindo de almoçar, já refrigerado com uma belíssima aguardente honesta, virei-me a outra, antiqua aguardente.
A Antiqua é aguardente vínica velha, produzida pelos métodos tradicionais, veludo que amaciou no pipo e eu, logo no vislumbre do recordatório, as filas infindáveis de pipos das Caves Aliança que a produz.
Restaurante Acert Sabores e Cultura
Acabada a reunião, sugerem-nos almoço e, pão e vinho não se recusam, lá fomos a boa restaurante, casa cheia a uma segunda-feira, com clientes dos negócios e do quotidiano.
A entrada foi abrupta, nada que não se compusesse, e quando vejo a enorme botelha, 5 litros?, de outra região digo para mim, mau. Afinal não. A carta de vinhos é robusta, a preços simpáticos e o Dão está em casa, apesar das outras opções.
O vinho foi um Encruzado da Ramalhosa, falaremos dele mais tarde, e acompanhou uma deliciosa carne à portuguesa. Foi reforçado, cumprimentei o administrador à entrada e tomei-lhe o conselho, com um Martinho Alves, vinho de serviço, produzido com Encruzado e Malvasia Fina.


Madre de Água na Tasquinha do Brasileiro
Foi uma estopada, nestes dias de chuva e sol abençoado, que me levou aos caminhos do vinho. Já quase no final da caminhada, num dia de secos, após uma busca intensiva por uma bifana, resgatei a Anita e fui espreitar a vitrine. À galega. O balcão, os imediatos do comer, que azeitonas bravas e casqueiro chegam num instante. A vereda é antiga, ainda de outro balcão e refúgio para a sueca, os passos conhecidos.
Iscas de fígado, para mim com pimentos que tenho saudades do Zé das Merendas, petinga, polvo frito com polme, bacalhau em alta posta e simpatia. Eficiente e amiga. A Tasquinha do Brasileiro, hoje com poiso em frente à loja do cidadão nas vicissitudes do imobiliário, é ode à arte do petisco.
Por São Simão, ao Palace!
É difícil olhar à carta, liberto das grilhetas da amizade. Todavia, é essa mesma amizade, que se quer para toda a vida, que nos faz olhar ao trilho e ao que se andou para aqui chegar. Assim, amanteigados e com umas belas azeitonas, carnudas e molhadas em bom azeite, sentei-me a bebericar um Encruzado, de S. Simão da Agueira. Para evitar fogo amigo e sabendo eu que já trazia aviado, no Divino, um outro branco, Encruzado, ao modo e ao ano.


Andalucia, uma taberna espanhola no centro da cidade
É sempre uma alegria o regresso ao Andalucia, pintxos e vinho. Em noite de casas cheias, fomos lá acolher-nos ao abrigo de outras comidas e outros flamengos. Saímo-nos bem. Outra coisa não seria de esperar. o lado das Escadinhas da Sé, uma deliciosa opção para dias de sol, com mesas ao ar livre e tapas deliciosas. Atendimento muito gentil
Ovos rotos, presunto e batata frita e a gema do ovo traçada ali mesmo por funcionário diligente. Enganada a fome, assente o branco Encostas de Penalva que pedi a copo, aberto o Adega de Penalva Rosé 2023, chegaram os cogumelos, grandes e envolvidos em pão ralado, antes da fritura

55; o Norte a Sul do Brasil à Silva Gaio, em Vissaium
A rua é antiga e vai-se reabilitando. Aos anos que para ali caminho. Catraio do liceu, com latim em atraso, já na boavaiela, qual diplomata em Alcazar a espreitar à Varanda do Dão, tive ali explicações. Por 4 contos de réis, 20 paus nos dias de hoje, gramática e declinações, embalados pelas rotativas da Tipografia Martins.
Depois há a campainha, ao centro e por cima da mesa, tocando, nos atendiam. E, claro, por detrás do balcão que creio fosse de mármore, o bacalhau de molho, à antiga, nos baldes. Para os carnívoros costeletas. E vinho. Muito.
Na abertura do di Vino Dão
Há uma porta, envidraçada, no número 23 da rua do Carmo, em Viseu, que reúne copos, vinho e saber. Petiscos também.
Só Dão. E livros, até o meu, sobre uma região cheia de potencial e com muito para crescer. Muito saber. E querença.
Balcão à esquerda de quem entra, esplanada para fumadores e comedores, espaço, arte, um bacelo de Touriga Nacional e, até, a simulação do solo e fundo do rio Dão.
Com rodelas de enchidos, e que rica morcela, tapas, tostas e ademais entreténs de boca, atirei-me às provas.


No Rodízio, com um Casa da Ínsua Rosé, 2023
Bebi-o de rodízio. Entretive a boca depois da Caipirinha e avancei ao rosado para a grelha. Dos acrescentos não me preocupo, ocupam espaço embora o Rodízio do Gelo esteja caro para racionarem banana e cebola fritas! Mas tenho de me penitenciar em Mões. Fui à vizinhança e vim, meio, feliz.
Feijão, couve mineira, chips, banana e cebola frita em porções. Caipirinhas demoradas, solavancos na receção.
deRaíz, em Rebordinho e com queijo velho!
Voltei lá pelo queijo. A bem dizer, talvez tenha sido o amor a levar-me. Não
costumamos repetir, numa semana, a mesma mesa. Mas também tinha a
consciência pesada.
Aqui atrasado, como adoro esta expressão, num jantar, já com três MOB
aviados na Sé, sentei-me no deRaíz e aviei uma costeleta de Vitela
Mirandesa, sem queijo e uns legumes.


Gryzzler, The Journey
Ouvi-lhe a música, creio que a primeira vez num bar da Nacional 234, mas vibrei os tímpanos na Feira do Vinho do Dão.
Primeiro cliente a bater na porta do Armazém, diz-me “tinha aqui isto guardado para algo”.
“A dança de balcão” abre o agrunado, “banda sonora para acompanhar com um belo Dão”.
Ora eu, que tenho uma fotografia dele com o nosso diretor de operações, fiquei pasmo da generosidade.
“É 99%de música portuguesa”, garante-me o produtor e DJ.
Ouçam, tudo isto é Dão. Com Armazém.
O porcino!
Sim, cevar que isto não é só atar e por ao lume. Chouriço, farinheira, alheira, moura, morcela, linguiça, cachola,- a melhor carne do porcino, precisam de tripa lavada e água a correr. Farto e lambuzado que é disso que se trata quando o povo é velho, mas não desmemoriado, e o reco ainda sustenta, mais que o volfrâmio, que os tempos são outros e é na mesa que se forjica a amizade. No Touro, em Barrelas e em todas as Terras do Demo, a matança faz tradição.


A maça dos Bravos de Esmolfe
Mais saborosa, o perfume a maça escorre pelas beiras e os negócios estão apalavrados. Há novos agricultores e novíssimos pomares, mas a região da Beira Alta tem capacidade para aumentar a produção. Ainda falta frio, mas a Beira Alta, a Montanha, a Altitude e, claro, a Esmolfe, fazem coro a pedir uma central de vendas comum, mas quase ninguém arrisca dar o primeiro passo.
Os novos caminhos do queijo Serra da Estrela
Oliveiras, pinheiros, granito e ovelhas. Frio de inverno, estopa no estio e nos entretantos 15 Mil ovelhas serra da Estrela, e algumas churras mondegueiras, para lá de Fornos de Algodres, cada uma ordenhada duas vezes ao dia. Escorridos serão, bem medidos, pouco mais de 8 mil litros de leite, escasso mas o suficiente para uma vida que começa antes do galo cantar e que acaba, não raro, quando quase o sol dobra novo dia. O dia-a-dia dos pastores e das queijeiras é árduo, começa antes da ordenha e acaba quando a massa fica a repousar, mas o suor compensa no palato. Talvez 40 dias, talvez 360 noites se o quisermos velho e duro como cornos. Como convém a um produto único, que procura novos caminhos e que, talvez, tenha entrado agora numa nova vida.


Dois pipos esquecidos, em Vila Nova de Tazém deram origem a uma das aguardentes vínicas
O enólogo da Adega Cooperativa conta que:
O pipo foi encontrado em 2000 numa adega que ainda dispõe de alambique e caldeira já não se fazia prologava a vindima de setembro a março e o engaço passou a ser encaminhado para destiladores, vinificar destilar as regras fizeram baixar o consumo 2 pipos 550 litros que a madeira também bebe, compraram bagaço para ir atestando engarrafaram uma bagaceira velhíssima, 20 anos de casco, tem vinda a ser atestada no casco é preciso desdobrar dos 60º ate´ aos 39º a 40º para ser engarrafada uma raridade





